sexta-feira, janeiro 19, 2007

Para se começar bem o ano:

Começar o ano novo é uma arte, principalmente se você é adepto ao ritual supersticioso de que algo pode mudar se voce engolir doze uvas durante as badaladas da meia-noite ou esfregar uma nota de dólar na buceta ou na bunda.
Eu já tinha tentado de tudo. Comer lentilhas na última refeição do ano, colocar dinheiro no sapato direito, pular de uma cadeira à meia-noite para começar o ano com o pé direito, etc, etc, etc. Tudo em vão, um ano era igual ao outro senão pior.
Mas, nada se compara aos anos de 98/99 e 99/2000 quando resolvi radicalizar na superstição e levei-a ao limiar que a separava da macumba. Foi uma tia minha que me disse que se eu seguisse alguns “procedimentos” durante a virada do ano eu iria ter um ano novo completo em todos os aspectos positivos. Na merda em que eu andava, não foi preciso muito papo para que eu me convencesse de que o ritual que ela me ensinara poderia mudar minha vida e que eu teria um ano de 99 incrível.
O ritual era simples: indumentária completamente branca, acender doze velas na praia, estourar a champanhe meia-noite, beber e oferecer pro santo, entrar no mar pulando as sete ondas e fazer a oferenda de doze rosas e um vidro de perfume à Yemanjá e fazer os pedidos. Segui os procedimentos à risca mesmo sob a saravaiada de gozações que tive de ouvir dos amigos que comigo estavam. Zombaria nenhuma me atingiria pois eu sabia que durante o ano eu poderia, ao passo que minha vida fosse ficando cada vez mais extraordinária, lembrá-los que foi graças à fé que depositei na minha mandinga de ano-novo. Seria o meu “cala-boca” aos incrédulos.
O ano foi uma bosta. Um dos piores da minha puta vida.
Algum tempo depois, repassei junto com minha tia todos os passos do ritual e ela chegou à conclusão que meu ano foi uma bosta porque eu regulei no tamanho do vidro de perfume “Seivas de Alfazema” que comprei pra entidade. Tinha que ser o vidrão de 500ml e não o vidrinho de 250ml. Meu ano inteiro foi um fracasso por conta de 250ml de um perfume de empregada doméstica que eu economizei na oferenda ...
O momento da grande virada se aproximava: o maldito ano de 99 chegaria ao fim e entraria o místico e promissor ano 2000. Desta vez eu cumpriria o ritual de oferendas para Yemanjá corretamente e começaria o milênio cheio de boas perspectivas (ok,ok, o milênio começou em 2001 mas ninguém pode negar o misticismo que rondava o ano de 2000). Nada de mesquinharias com a quantidade de perfume, as rosas seriam as mais belas e a champagne seria Möet. Nada poderia dar errado...mas deu.
Pra quem se lembra, a virada de 99/00 foi chuvosa, horrivelmente chuvosa. Os fogos de artifícios falhavam, todo mundo foi de guarda-chuva para a praia, aquela merda geral. Dias antes eu já preparava as oferendas: lindas rosas vermelhas, champagne Möet e 500ml de “Seivas de Alvazema” (eu não sei o porquê, mas a santa exige que seja esse parfun vagabundérrimo). A coisa já começou a desandar aí. Por conta do calor, as rosas murchavam em algumas poucas horas. Se a santa encrencou com 250ml de perfume eu não poderia nem imaginar o que me esperaria se eu jogasse aquelas rosas murchas no mar. Resovi congelá-las. Ficaram durinhas e perfeitas. Rumamos para a praia dez minutos antes da meia-noite em baixo de uma chuva brava, o primeiro milagre da noite já aconteceria se eu conseguisse acender as velas. Coloquei um guarda-sol na praia, cavei um buraco para evitar o vento e uma a uma as velas foram sendo acesas. Foi difícil, me queimei várias vezes, acendia uma apagavam três mas antes da meia-noite as doze velas estavam brilhando. Abri o perfume, preparei as rosas congeladas, retirei aquele ferrinho escroto que segura a rolha da garrafa no lugar e olhei no relógio: 10 ...9 ... 8... 7... 6...5... 4... PUM ! Nesse exato momento a rolha da champagne estourou e atingiu o meu olho. Tonto de dor apaguei no chão, sobre as velas acesas e virei toda a champagne e o maldito perfume na areia da praia. Quando me recuperei ainda deu pra ver um foguetório sem graça sob a chuva e jogar as rosas congeladas no mar, já sem nenhuma esperança na vida.
Este sim foi o pior ano de minha vida. Só não deu mais coisas erradas por falta de tempo.
Bom, superstições à parte, eu desejo a todos um pusta, incrível, soberbo, magnânimo, magnífico, magnético ano novo para todos vocês e espero poder ouvir de meus amigos boas histórias neste mais um ano que começa.

1 Comments:

At 3:15 AM, Anonymous Guda said...

E você não vai contar nada sobre o ano novo em que a cada abraço de felicitação, você dava uma borrada na cueca?

 

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