domingo, janeiro 28, 2007

A Estória da Baratinha Decodificada

Recentemente o Brasil teve uma grande perda cultural com a partida do grande mestre João de Barro, o Braguinha, para o céu. Poucas pessoas sabem que aquele eclético compositor, dono de um acervo invejável de hits da MPB, também era o responsável pela adaptação, letras e músicas daqueles disquinhos coloridos que se voce tiver mais de trinta anos fatalmente ouviu vários deles numa velha vitrola "Sonata".
Com arranjos a cargo do maestro Radamés Gnatalli e Francisco Mignone, Braguinha produziu dezenas de disquinhos com as mais maravilhosas narrativas e melodias inesquecíveis porém, após eu ouvir mais de dez vezes a história da Baratinha, cheguei à conclusão que o que era para ser uma bela e triste estória infantil, era na verdade uma intriga pululada por fatores preconceituosos, cobiça e interesses financeiros. Percebam as mensagens subliminares negativas para a formação do caráter das crianças através dessa minha análise semiótica estrofe à estrofe deste velho disquinho colorido. Deixo aqui as conclusões. Pensem a respeito, o assunto é muito sério:

Resumo da Análise Semiótica da Estória da Dona Baratinha
(A análise semiótica da canção propicia uma descrição justamente pela decodificação do difuso, das relações entre fala e canto de um lado, e entre letra e melodia de outro, trazendo à tona as instâncias complexas que o verbal não carrega sozinho.)
"Era uma vez uma baratinha, varrendo a casa achou um vintém. Comprou uma fita, amarrou no cabelo e foi à janela cantar assim:
- Quem quer casar com a Senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha ? É carinhosa e quem com ela se casar, terá doces todo dia, no almoço e no jantar ...."
No trecho acima, início da narrativa, a Dona Baratinha apresenta-se como uma personagem completamente infeliz pois teve que achar um vintém para ser desejada por alguém (rimou). Notem que sua beleza, aparentemente, foi sendimentada pelo fato de comprar uma fita e amarrá-la no cabelo. A prática do suborno fica evidente com o fato dela oferecer doces no almoço e no jantar para o "felizardo". Em suma, a Dona Baratinha raciocinou: Achei uma bolada, comprei minha beleza e agora comprarei um marido.
" - ... Passem passem cavalheiros, passem todos sem tardar, o mais belo com certeza minha mão irá ganhar."
Percebam a afobação da Dona Baratinha em arrumar logo um otário: "Passem todos sem tardar !" . A horda de interesseiros era tão grande que ela tinha que avaliá-los às pressas. Com isso, Dona Baratinha utiliza-se de métodos fúteis para a escolha do seu amado: prioriza os padrões estéticos dos pretendentes. O mais belo poderia ser o menos interessante, o mais inconsistente, o mais nulo, mas ele seria sempre o mais belo, o bibelô, o objeto sexual.
"Naquele momento, com o passo lento e bem pachorrento passou um boi.....- Boizinho que vai passando, quer comigo se casar ?" - Vejam como a Dona Baratinha está se oferecendo tal qual uma biscate, se entregando ao primeiro que passa
"Óh tão linda senhorita quem rejeita lhe esposar ?" - Um interesseiro nato, nunca ouviu antes falar na Dona Baratinha pois se mostra completamente formal no trato com tal messalina, agora aparece lépido e faceiro querendo desposá-la. Com certeza estava de olho no dinheiro na caixinha.
" - Sou porém muito sensível e medo tudo me traz, diga primeiro Boizinho, como é que você faz? " Pronto! Esse papo de ser muito sensível, coisa e tal, revela que Dona Baratinha, baseada em arquétipos do noivo perfeito, tinha que encontrar algum defeito no pobre boi. Todo mundo sabe como faz um boi, ela também sabia. Percebam também a dupla conotação na pergunta: "...como é que você faz ?"A vulgívaga queria desgraçar com o infeliz do boi e assim o fez:
"-Muuuuuu, muuuuuuuuu ! (fez o boizinho)
-Deus me livre de ter um noivo, mugindo dessa maneira, terei sustos todo dia, terei medo a noite inteira ...
E assim lá se foi desiludido o pobre boi ...."
A marafaia conseguiu o que queria. Humilhação, destrato e perpetuação da velha mentalidade do "fator estético". Esse mesmo golpe falacioso, só pra não alongar muito eu antecipo, ela passou num burinho e num cabritinho. Todos seguiram pela estrada completamente tristes e humilhados, a beira do suicídio.
Vão sentindo o resultado, quem muito escolhe...
Bom, passou por lá o Senhor João Ratão ou, segundo a narrativa, era o garboso e pimposo Senhor Ratão. Foi o escolhido, lógico. A ervoeira, após a pergunta do "como é que voce faz?" disse: "- Isso sim que é voz bonita , não pode assustar ninguém, até que enfim eu encontrei o noivo que me convém!" Daí então coroa-se a falsidade e jogo de interesses. A fubana e o lacraio cantam em uníssono: " Na matriz do rancho velho dia sete casarão, a Senhora Baratinha e o Doutor João Ratão. A sua amada presença, será muito apreciada, pode trazer os amigos e também a criançada. Porque depois do casório vai haver festa animada, sendo servido aos convivas uma lauta feijoada."
A ostentação começa a tomar conta do casal. Pode vir quem quiser, o importante é que eles querem mostrar que: Nós temos, nós podemos, vocês que se danem. Curtam essa brecha que daremos para que vocês se divirtam.
" Ahhhh, maldita feijoada, que tentação. Transtornou toda a vida do Senhor João Ratão"
Maldita feijoada? Essa estória ganante e corrupciosa vai meter o pau na feijoada? Vai falar sobre gula? É isso?
"Eu vou contar pra voces o que aconteceu. Naquela manhã........."
Pombas Dona Narradora, todo mundo sabe o que aconteceu. O casório foi pro brejo pois o garboso e pimpão Senhor João Ratão, tomado pelo desejo pecaminoso da gula, caiu na panela do feijão. Interessante notar que a narradora toda vez que se refere aos aposentos do João Ratão ela diz: "O noivo em seu BELO APARTAMENTO", o que prova que a murixaba da Dona Baratinha utilizou de métodos inescrupulosos para se juntar ao rico e poderoso rato, já sabendo de ante-mão dos dotes financeiros de tal ser.
Não quero me estender mais. O Maestro Gnattali soube descrever com a triste melodia em escala cromátida menor o triste fim dessa história: a Dona Baratinha não se casou com o João Ratão, passou o maior carão na igreja sendo abandonada no altar. Virou uma barata velha, gorda e cheia de varizes que a molecada do bairro sacaneou para sempre enquanto ela ficava tristonha na janela cantando:
"- Quem quer casar com a Senhora Baratinha que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha ? É carinhosa e quem com ela se casar, terá doces todo dia, no almoço e no jantar ...."
É isso aí mulherada, quem desdenha nunca tem e quem muito escolhe também. Nem que encontre um vintém.
E eu, se um dia tiver filhos, juro que os pouparei de ouvir essas histórias macabras e perniciosas que um dia habitaram o meu imaginário infantil.

4 Comments:

At 2:47 AM, Anonymous Fab Fucker said...

Na primeira análise não podemos incluir a puta Edna ...Humm... a segunda análise me faz pensar em mim mesmo...agora no terceiro indentifiquei vc! Bom...identifico eu vc e fab fuckers por todo lado! Hey Joe vc escreveu com o Houaiess no ladinho não é!! Bom...(OFF)Cada comentário é um gole de pinga...a Cla tá dormindo aqui do lado(novidade!!) Tô escutando o jogo do Grêmio e tá 3 a 0 até agora!) Well...vulgívaga!...daonde tu tirou isso..haha...Bem..."Curtam essa brecha que daremos para que vcs se divirtam!" ...hi caralho, tô nessa!! A minha cara! Haha...ei...murixaba!!!!.. Ah não agora não quero mais ler...bom agora to no final mesmo pôôôrrrrra!!!... Bom...bom trabalho maestrosssss...a minha namorada gostas! Uêba! Eu como com varisez também!!

 
At 11:16 AM, Blogger Joe Bass said...

Fab Fucker, Juro que eu acho que voce tomou ácido pra fazer éssa análise da análise semiótica da fábula fabulosa...



(morando com a Clá ??? Casou ???

 
At 7:29 PM, Anonymous Assis Bergamaschi said...

Relaxa, Joe, que as crianças de hoje não são mais baratinhas. São até bem carinhas. Quem vai querer saber de dois vintens? E trancinhas no cabelo? E feijãozinho na panela? Hoje elas querem saber de conta no banco, cartões de crédito, viagens internacionais, cabeleireiro de nome, esteticistas famosos e lindos personal treiners. E se algum don ratão se deixar seduzir será sempre um ato consciente, com trocas justas, papel assinado no cartório e antes de se debruçar na panela vai cuidar das cordas e praticar bump-jumping enquanto saboreia a gostosa feiJOEada da Dona Carinha.

 
At 2:58 AM, Anonymous Guda said...

Traidor do movimento.

 

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