sexta-feira, novembro 11, 2005

Neto de peixe ...

Hoje faz uma semana que meu avo amado se foi. Velhão batuta aquele Dr. Silvio (Vô Paizinho para os netos), médico respeitado e solicitado, avo dos sonhos de qualquer netinho consumista e, principalmente, escalavrador de primeira linha. Comia todas e possuia um enorme mal-gosto no quesito beleza. Não importava cor, raça, credo, Dr. Sílvio mandava bala. Passava de saia na frente dele, podia ser até padre, o velho não perdoava.
Numa dessas escalavradas se envolveu com a vítima e desposou-a. Foi seu segundo casamento já que o primeiro, com minha avó, se esvaiu entre uma pulada de cerca e outra.
Eu amava esse velho demais. Todas as minhas férias e feriados prolongados eram na casa dele em Itanhaém. Eu não desgrudava um minuto do Dotô. Passava o dia todo com ele na clínica cumprindo a nobre função que ele me designava: chamador de pacientes. Quando saia paciente da consulta eu me dirigia a sala de espera munido das fichas médicas e chamava o próximo. Durante as consultas eu gostava de ficar desorganizando a imensa estante de amostras-grátis de medicamentos. Tirava tudo da ordem alfabética e colocava por ordem de cor de embalagem. O velho se divertia, achava o máximo.
Aliás, diga se de passagem, eu nunca consegui tirar o velho do sério. Eu tentei muito, desde bem pequeno, mas nunca consegui. Todos os atos de vandalismo mirim realizados na presença dele sempre resultavam num largo sorriso e não raro em gargalhadas.
Em Itanhaém eu tinha o maior orgulho de andar com ele na rua. Toda a cidade o amava. Não havia uma viva alma que não fosse grata a ele por tratar de algum motivo que poderia ir de unha encravada à tumor cerebral. Nós nunca íamos em restaurantes pois nunca deixavam ele pagar a conta. Eu achava isso o máximo mas ele se sentia incomodado e parou de ir a restaurantes.
Dr. Silvio era chefe de todos os postos de saúde da cidade. Atendia a população miserável pela manhã, a tarde atendia os abastados em seu consultório. Possuia também um consultório em casa para emergencias noturnas. Nunca cobrava consultas particulares de pessoas desfavorecidas que batiam em sua casa altas da noite com dores de ouvido ou febre.
Faixa-preta de caratê e corintiano inverterado, eu babava nas histórias que ele me contava. Costumávamos ficar conversando até a madrugada e o sono nos vencer ou sua mulher rodar a baiana.
Nunca me faltou dinheiro pra nada na infância. Eu me abastecia na carteira do Dr. Silvio todos os fnais de semana quando ele passava para nos ver. Repreendido pela minha mãe, ele solicitou que eu apresentasse todas as semanas um "budget" e uma prestação de contas para que ele não me desse dinheiro demais. Caprichosamente eu elaborava a tabela de gastos passados e previstos. Obviamente eu mascarava a prestação de contas e conseguia super-faturar o budget da semana. O resultado aparecia em forma de doces de mocotó, pipocas doce, balas de leite Kids e revista MAD da semana.
Dr. Silvio começou a morrer aos poucos logo após a morte de sua segunda esposa há uns 10 anos atrás. Por noites e mais noites ficou sem dormir chorando copiosamente e gritando o nome dela em prantos pela madruga afora. A partir desse ocorrido, a cabeça do velho começou a dar "tilt". Ele passou a ficar repetitivo e confuso. Aos poucos se enconttrou com outro médico (o Dr. Alzheimer) e perdeu toda a noção de tempo/espaço. E assim sua chama da vida foi aos pouquinhos se apagando, se apagando e se apagou definitivamente durante uma noite de sono no lar de velhinhos que ele passou seus últimos tempos.
Lembrando dele agora eu consigo sentir a barba mal-feita que ele usava de praxe e adorava ralar nas minhas bochechas, o cheiro da cigarrilha "Talvis" que ele fumava e ouço suas gargalhadas, como aquelas que ele dava quando eu surrava meus desafetos na rua da sua casa com os golpes de caratê que ele me ensinava.
Só espero que os anjos do céu estejam usando calças jeans para recebê-lo, senão ...

5 Comments:

At 5:29 PM, Anonymous Guda said...

Lindo!

 
At 10:45 PM, Anonymous Clarissa said...

Tio Carlos, lendo seu blog descobri que vc passou sua bela infância em Itanhaem junto do seu Avô. Pois é, então acho que nós nos cruzamos por lá, pois meu Avô também tem um apartamento naquelas bandas, eh, eh, eh... fica na praia do Sonho (a praia dos pobres)Beijos com saudades!!!!

 
At 8:58 PM, Anonymous Andrea said...

Me fez chorar... esse é o dr. q eu infelizmente não cheguei a conhecer... bj. tia Andréa

 
At 8:25 PM, Anonymous Elaine said...

chorar com teu choro, sentir com tua dor...

 
At 7:32 PM, Blogger Gui said...

sem palavras...

 

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