sexta-feira, março 16, 2007

Senta que lá vem história...

No século passado, mais precisamente em 1992, saltei de pára-quedas pela primeira vez.
Economizei dinheiro por vários meses para esse momento de libertação da alma e planejei-o com esmero e segredo. Meu pai nunca poderia saber, morreria de infarte antes que eu pudesse chegar ao solo.
E por que foi em 1992? Oras, nesse ano eu completava 21 aninhos cheio de vida e testosterona. Meus "responsáveis" não precisariam assinar uma autorização permitindo-me saltar. Eu era mais eu, eu mesmo, myself e moi.
Mas a realidade não era bem assim. Meu pai pagava minha faculdade, alimentação e alojamento. Além do mais ele adorava subjugar a família usando como chantagem o dinheiro. Em suma, ele pagava as contas, ele detinha o poder das decisões e exigia que prestássemos adoração sagrada aos seus pés.
Mas Joe Bass era um rebelde e, em um dado final de semana de janeiro de 92, começou a se preparar para o primeiro dia de curso de seu primeiro salto.
Era um sabadão maravilhoso, o curso começava as 7:00 da matina e era num bairro muito distante de onde eu morava. Eu não poderia pedir emprestado o carrro da minha mãe pois ela sempre me pedia satisfações, (confesso que eu era um duro, não tinha carro e comi muito menos mulheres do que eu devia por conta disso, além de tudo, precisava pedir autorização para usar o carro de mami ou papi) então, madruguei num sábado para poder tomar vários ônibus até o aeroclube. Nunca na minha vida acordei tão cedo num sábado e isso levantou sérias suspeitas em meu pai de que algo de errado estava por vir.
Depois de um dia inteiro de treinamento eu estava pronto para o meu primeiro salto "enganchado", ou seja, voce sai do avião conectado por um cabo e o pára-quedas se abre automaticamente. Apesar de parecer algo muito lógico, isso exige muito treinamento para poder contornar situações de emergências como, por exemplo, um para-quedas que abre todo enrolado ou o uso correto de um para-quedas reserva ou, até mesmo, a oração para a Nossa Senhora Desatadora de Nós caso tudo desse errado e nem o jipe estivesse te esperando lá em baixo.
Era para tudo correr em segredo mas meu pai desconfiou, me algemou no porão de casa, enfiou bambús sob minha unha, queimou minha genitália com um marcador de bois e me fez escutar escutar Abba durante horas. Confessei.
Num primeiro momento ele ficou puto, depois ficou autoritário, por fim escutou minha mãe (sempre as mães, as acalentadoras da guerra) e me deixou continuar o treinamento.
No dia do meu primeiro salto, minha mãe acordou cedinho e tirou minha irmã da cama para assistir ao grande evento. Meu pai se recusou a ir mas quando minha minha mãe ligou o carro ele blasfemou, repreendeu a conduta incentivadora de mami, vestiu-se e resolveu vir também.
Ele fez questão de checar tudo. Queria saber como funcionava os mecanismos de ativação do para-quedas, quis testar o rádio do meu capacete, acompanhou cada detalhe do equipamento que eu vestia, ficou assistindo empolgado os saltos que antecederam ao meu, tecia comentários maldosos sobre as aterrisagens mal-sucedidas que ocorriam a poucos metros de onde estávamos e finalmente calou-se quando eu parti em uma Kombi rumo ao avião que me levaria para meu primeiro mergulho ao infinito (onde a terra é o limite).
O procedimento do salto foi perfeito, consegui até mandar uma banana pro instrutor durante a queda e passeei pela primeira vez pelo silêncio das nuvens. Por ora ou outra recebia instruções de navegação pelo rádio enquanto curtia cada nanosegundo velejando no ar. A aterrissagen foi perfeita e em pé. Enquanto eu juntava o páraquedas, via um vulto que corria longiquamente em minha direção. Fui juntando todo o equipamento e o ser se aproximou, frenético, ofegante. Era meu pai com uma máquina fotográfica na mão. Tirou uma foto minha no meio do campo, para-quedas aos braços, me acompanhou até a sede do aeroclube me enchendo de perguntas e falou sobre o assunto durante a semana inteira.
Nunca mais meu pai me perguntou nada quando eu saia nas primeiras horas da manhã de domingo no carro dele para mais um dia de salto. Quem ficou mais orgulhoso desse feito todo nem foi o meu pai, fui eu mesmo. Pela primeira vez na vida ele entendeu que ele tinha filhos autônomos no pensar e no agir. Ele não aceitou isso até hoje, mas que entendeu... ah, entendeu sim!

3 Comments:

At 4:35 PM, Anonymous Marina - irmã da Clá said...

Cara, muito bom teu blog.
Tuas histórias são engraçadíssimas, sempre que eu venho aqui eu me divirto.
A Clá e o Fabio vivem falando em você.

 
At 2:13 AM, Blogger Joe Bass said...

Hahaha, prazer em conhcê-la, Marina!
Pede pra cLá contar quando morávamos na mesma casa em Londres e ela chegava congelada de manhã, louca pra entrar no apartamento e eu ficava falando pelo interfone com ela como se fosse um telefone. Ela queria me matar diariamente.
Beijão

 
At 5:05 PM, Blogger JU said...

Eu saltei de parapente uma vez. Mas não economizei nada. O instrutor era afim de mim.

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